segunda-feira, 26 de março de 2007

Para o que deu a minha curiosidade...

Porque será que tantos protestantes convictos, de reconhecida notoriedade, a determinada altura da sua vida se converteram ao Catolicismo e em relação ao contrário quase não se conhecem casos?
Porque será que tantos ateus, muitos deles anticlericais, de reconhecida notoriedade, a determinada altura da sua vida se converteram ao Catolicismo e em relação ao contrário quase não se conhecem casos?
Porque será que tantos radicais de esquerda (não confundir com radicais livres...), de reconhecida notoriedade, a determinada altura da sua vida se converteram a posicionamentos políticos conservadores (ou mais conservadores) e em relação ao contrário quase não se conhecem casos?

14 comentários:

Rui Corrêa disse...

Bom, se se pensar na velha máxima de que "quando se muda é para melhor", poder-se-á encontrar alguma explicação para o fenómeno.

Pedro disse...

Rui Corrêa, eu não o confirmo nem o desminto, mas que eles não se queixaram depois das ditas mudanças isso é indesmentível.

pequena papoila disse...

Talvez porque as suas convicções - sejam elas de cariz religioso, político ou filosófico - deixassem de ser consistentes ou simplesmente de existir, nalguns casos, porém noutros maioritariamente subsiste apenas o puro oportunismo e a subsequente mais-valia que a mudança lhes possa trazer - para melhor, claramente!
Na questão religiosa actual (os tais protestantes convictos, assim como, ateus anticlericais) ao converterem-se ao catolicismo, se calhar, será muito por influência da Opus Dei, com todos os benefícios que esta organização rica e de enorme relevo, implementada no seio da Igreja Católica lhes trará certamente!
Na questão política, esses tais radicais de esquerda, ao perceberam que se continuassem nos seus partidos nunca chegariam ao 'Grande Poder' e, por outro lado como esses partidos são extremamente ortodoxos, não se abrindo à renovação, provocam dissidências nos seus militantes; procurando estes, outros partidos mais próximos do 'Tal Poder' ou dos seus novos ideais, para usufruírem dos benefícios, que essas mudanças lhes trarão!
Quanto ao contrário, existem casos, embora raros; sendo esses de pura fé ou idealismo!
E concluo, que não há regra sem excepção...

Áurea

Sininho disse...

Relativamente a católicos e até padres, existem uns tantos que, volta e meia, dão um arzinho da sua graça, na televisão.
Ooops, esqueci-me de que já não existe Hermansic e agora não têm aquele espaço à disposição.
Mas que os há, há...

Pedro disse...

Áurea,
É verdade que o oportunismo está subjacente a muitas destas mudanças, sobretudo as políticas. E o que me vem à mente são as de alguns ex-estalinistas que de súbito parece que ficam com ímpetos renovadores dentro do PCP. E já um número considerável acabou em cargos governativos do PS e, em menor escala, do PSD - com consequências consideráveis também...
Quanto aos benefícios do Opus, eu neste ponho algumas reticências, pois consta que os elementos que procuram recrutar tratam-se de pessoas bem estabelecidas na vida e com uma posição social definida. Depois claro há aqueles que pedem para entrar, mas duvido que entre esses estejam muitos protestantes ou ateus convictos.
Eu referia-me mais a indivíduos cuja notoriedade é de conhecimento público, pelo menos na sua esfera, logo sua conversão ter sido notória também. Vem-me à cabeça, por exemplo, o Bocage, como ex-ateu, Chesterton, como ex-protestante, mas a lista é facilmente preenchível... Ao passo que a de casos inversos, por motivos que não sei explicar, nem por isso...

Pedro disse...

Sininho,

Há, nesses casos, quem se tenha convertido ao circo mediático, religiões à parte...
E conversor como a TV não há muitos por aí...

Filipe Brás Almeida disse...

Talvez porque nenhuma das premissas seja verdade.

Eu por exemplo, sou ateu convicto, e já fui extremamente católico. Conheço inúmeros casos destes.

Fui bastante conservador e embora não me considero de esquerda radical, revejo-me bastante na mentalidade 'esquerdista' (se assim lhe podermos chamar) no que toca à mentalidade iconoclasta e anti-taboo.

Filipe Brás Almeida disse...

Em termos de casos notórios temos o caso do George Carlin e Martin Scorsese são ateus, ex-católicos.
Jean Paul Sartre é outro. Heidegger também.

Pedro disse...

Filipe

És capaz de ter razão, pois as minhas suposições, neste caso concreto, são mais provocadoras do que assertivas...

No entanto vêm-me à cabeça nomes de ex-ateus como Marcel Proust, Karl Stern (neuropsiquiatra, de origem judaica, autor do fantástico Pillar of Fire), Salvador Dali, Luis Bunuel (embora tenha sido educado como católico, na juventude "converteu-se" ao marxismo mas mais tarde volta às crenças religiosas), Eric von Stronheim. Outro nome que não é de desprezar é o de Tony Blair, que consta estar em fase de conversão sob a orientação espiritual de... franciscanos.

Uma coisa é certa se isto se tornasse mais "público" não faltaria aí listas de convertidos católicos, protestantes e ateus, não obstante a falta de autorização dos visados...

Quanto à política, se dermos uma olhadela ao panorama nacional, e criarmos uma excepção a Freitas do Amaral (que no entanto penso que nunca se terá tornado esquerdista) e a poucos mais, ficamos conversados...

Miguel Madeira disse...

Vou repetir muito o que FBA já disse mas:

a respeito da conversão catolicismo > protestantismo:

além dos primeiros protestantes (todos eles ex-católicos), acho que a maior parte dos crentes portugueses de igrejas como a Baptista, Maná, IURD, Testemunhas de Jeová, são pessoas que se converteram, vindas do catolicismo

a respeito da conversão catolicismo > ateísmo:

Acho que a percentagem de ateus na população tem vindo a subir com os anos, o que pressupõe que o saldo líquido das conversões é favorável aos ateus (sobretudo se aceitarmos o critério de que "filho de católico é católico até se pronunciar em contrário")

a respeito da conversão "radical de esquerda"* > "mais conservador":

Parece-me o único ponto que é confirmado pelos factos - pode ser explicado pelo fenómeno de "regressão à media"

* já agora, também para os "radicais de direita": Alain Mandelin, Nuno Rogeiro, Paulo Teixeira Pinto, José Miguel Júdice, etc.

Pedro disse...

Miguel

A questão deste post é algo indecentemente elitista, pois tem como tema não a população de modo geral, mas sim individualidades cuja notoriedade tornou conhecida a sua conversão. Neste caso concreto, podemos seguramente afirmar que a elite intelectual inglesa é um exemplo paradigmático da premissa em causa não só quanto à conversão protestante-católico como ateu-religioso (católico, neste caso).

Quanto à população portuguesa e ao facto de esta se estar a tornar cada vez mais ateia, isso é um tópico que dará pano para mangas em muitos, muitos posts com estudo aprofundado, pois a realidade não é tão linear como o Miguel e muita gente poderão pensar. E eu sei-o pois conheço casos bem próximos.

Quanto aos exemplos de políticos que deu, eu não sei se a mudança deles foi assim tão radical, pois duvido que eles alguma vez terão sido radicais. Antes pelo contrário, eles reagiram foi ao radicalismo vigente no tempo da juventude deles, no qual quem não fosse contra o sistema, nem favorável à resistência do PCP, era reaccionário e fascista. Agora é natural que eles já não defendam as ideias de um império colonial sebastianista português, pois essa realidade não faz mais sentido excepto se for no esotérico :)).

Miguel Madeira disse...

"Neste caso concreto, podemos seguramente afirmar que a elite intelectual inglesa é um exemplo paradigmático da premissa em causa não só quanto à conversão protestante-católico como ateu-religioso (católico, neste caso)."

No caso da conversão protestante-católico:

em primeiro lugar, é natural que, em termos absolutos, em Inglaterra haja mais protestantes a converterem-se ao catolicismo do que católicos a converterem-se ao protestantismo (pelo simples facto demográfico de haverem mais protestantes do que católicos); há outro factor que pode influenciar - um católico descontente com a igreja institucional tem muitas opções além do protestantismo: até há pouco tempo, a mais popular era o marxismo, mas também tem o ateísmo não ideológico, a religião "intima e pessoal", alguns neo-paganismos avulsos, etc. Pelo contrário, um protestante que busque a pertença a uma sólida tradição (isto é só um palpite: não sei quais as razões das conversões protestante>católico) praticamente só tem o catolicismo como opção (a Igreja Ortodoxa Grega fica longe).

Miguel Madeira disse...

"pois a realidade não é tão linear como o Miguel e muita gente poderão pensar"

No caso da conversão católico-ateu, podemos ver o meu caso: desde que tenho opinião religiosa sempre me considerei ateu; no entanto, como nasci e cresci numa família católica, não sei se contarei como "católico convertido ao ateísmo" (o tal pressuposto de "filho de católico é católico até se pronunciar em contrário"). E penso que o mesmo se aplica à maioria esmagadora dos ateus portugueses.

Pedro disse...

Miguel, claro que em termos de números absolutos, o seu raciocínio faz perfeitamente sentido. Porém, aqui a amostra não é propriamente universal. Refiro-me a um grupo específico - como atrás disse "indecentemente elitista", precisamente pelo facto de contrariarem a lógica e a tendência geral.

Quanto ao seu caso em concreto, de certeza que ele se repete em muitos outros exemplos de filhos de católicos. Mas, como eu lhe disse, a realidade não é assim tão simples e a lei do "eterno retorno" tem-se feito sentir - quer no sentido figurado quer no verdadeiro significado desta lei.