segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Modelos e planos para a saúde

Muito se fala sobre o sistema de saúde nacional e os dos outros. Não admira, pois a saúde é um dos factores mais importantes, senão mesmo o mais importante, a condicionar a nossa existência.
Reclamam os que se situam à esquerda do espectro político e alguns sectores nacionalistas e conservadores que esta deve ser garantida a todos. Respondem os mais liberais que este sector é um negócio como outro qualquer e que os agentes do ramo têm direito, tal como os outros, à iniciativa privada.
Têm ambos razão. É simplista, mas é verdade.
Os sistemas de saúde centralizados pelo controlo do Estado dão origem a monstros dispendiosos e ineficazes como o muito português abrilino SNS. Outras réplicas havia no Leste da Europa pré-década de 90. Por outro lado, privatizar a saúde sem mais preocupações com os utentes leva, como é evidente, a assimetrias e a exclusões aviltantes.
A solução já tem vindo a ser ensaiada em moldes tímidos e pouco divulgados, como são os casos das associações mutualistas e as, ainda poucas, empresas de modelo cooperativo, assim como alguns planos de saúde de seguradoras com preocupações sociais e associativas. Não são modelos perfeitos, pois ainda não tiveram oportunidade nem condições para se aperfeiçoarem. O motivo do seu sucesso no momento presente, ainda escasso em termos quantitativos, e no futuro está na personalização dos serviços e na descentralização das decisões administrativas.
A determinação dos modelos de cobertura de despesas para os mais e os menos necessitados pode muito facilmente, no caso das associações mutualistas, e inevitavelmente, no caso das empresas cooperativas, ser decidido localmente e com um conhecimento imediato e personalizado das necessidades e especificidades do doente e da sua família.
Claro que num momento inicial, as entidades associativas e algumas empresas precisariam da comparticipação do Estado. Esta seria, em termos de despesa pública, uma brincadeira em comparação com as actuais e abissais despesas com o sistema de saúde, e respectivas instituições, a começar pelos Ministérios, secretarias de Estado, institutos públicos, hospitais públicos, etc.
Não existem soluções fáceis. Todas as transições passarão por eventuais fracassos e despesas. Mas é o futuro e a justiça e a lógica de um modelo harmonioso e humano que está em jogo. Tudo o que não passe por aqui criará apenas monstros de despesa pública e, por outro lado, negócios a dar milhões de euros a uma ínfima maioria e custos terríveis e exclusão a uma imensa maioria.

domingo, 10 de outubro de 2010

A ler

Falsos inimigos

Mas o que definia em concreto esse antagonismo entre a concepção materialista e a concepção anti-materialista do homem? Como é que se pode juntar no mesmo campo o capitalismo e o socialismo, perguntarão…

Juntamo-los porque um e outro pensam a política e a organização da sociedade em função da produção, da economia, subjugando tudo o resto a esse imperativo que tudo explica e determina.
(...)
Enquanto que o liberal adora o livre jogo das forças económicas e do dinheiro porque mede por aí o sucesso, acredita que pode vir a possuir muito e define o seu bem-estar por essa posse quantitativa e material, o marxista odeia o livre jogo do capital e da economia porque acredita que daí surgem as desigualdades em seu desfavor que ele não suporta, ele avalia o seu próprio insucesso e a superioridade implícita do patrão e do rico em função do conforto material que o separa desta última classe.

Ora, como uns e outros avaliam o homem em função dos bens materiais e da economia as suas propostas de organização sócio-política derivam sempre de um pensamento económico, porque é a economia que lhes interessa primeiramente, é ela que determina a distribuição de bens e riqueza, e portanto define as hierarquias em que uns e outros pensam. Essa obsessão com o estudo das condições económicas faz com que ambos os lados tenham desenvolvido escolas de pensamento económico com soluções prontas a usar para todas as ocasiões, todos os tempos e todos os espaços.
In A Memória da Outra Europa - A nossa tradição política e a economia (parte I)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Cem anos de solidão

Num mundo em que a liberdade de expressão é condicionada e muitas mentiras generalizadas por cânones com limites e interesses bem definidos, nada impede e tudo favorece o sucesso do acto de recordar e homenagear, por esta data, a Carbonária.
Num mundo em que nos despem nos aeroportos e devassam nossa privacidade, dia a dia, em nome da segurança, a organização terrorista e criminosa, que planeou com todo o tempo e todos os meios o assassinato de um homem, uma mulher e um jovem indefesos e cobardemente assassinados à queima-roupa, continua a merecer a complacência e a homenagem indolente e ignorante pautada por comemorações "centenárias" e pela permissividade de uma opinião pública ignorante, a quem impingiram uma história criteriosamente deturpada. As tais comemorações "pela democracia" que celebram um regime que se limitou a usurpar o poder pela força e pelo derramamento de sangue sem nunca ter sido escrutinado.
O centenário celebrado pela dita República é o centenário mais silencioso, opressivo, miserável e mais funesto de toda a História de Portugal. E, ao contrário de muitos outros países bem próximos, não foram os períodos da Grande Depressão nem da II Grande Guerra os maiores responsáveis por este triste facto nem pelo nojo que é hoje o nosso País.