Está em vias de se constituir a Associação Ateísta Portuguesa. Será que agora os defensores da "sociedade civil" subsídio-dependente vão aceitar que a futura Associação também mame da teta estatal ou será que a distribuição de dinheiro de impostos alheios com vista à propaganda ideológica é um couto abraâmico?
Este comentário é típico de falta de conhecimento filosófico e epistemológico que abunda por aí. Ateísmo significa "sem religião" - no sentido revelado deste conceito - e não a negação da religião e da espiritualidade como forma de afirmação filosófica ou cognosciente. Para explicar melhor, implica "eu não tomo parte, não escolho, porque não acredito ou porque aquilo que escolhi é diferente". Não pressupõe uma posição definida no contexto das religiões. Por isso nunca poderia ser entendido em igualdade de circunstâncias com as religiões.
Aqui, site que explica e defende a posição do Ateísmo, dá o esclarecimento essencial para tanto mal-entendido e dogmatismo que se vê por aí.
6 comentários:
Pode querer dizer as duas coisas. A questão é que "eu não tenho religião" é uma posição que tem todo o direito a ser promovida como qualquer religião.
Não aceitar isto é querer continuar a condenar aqueles que não têm religião à discriminação e às imposições feitas pelos que têm religião.
O prefixo "a", proveniente do Grego, significa "sem", o que pressupõe falta de crença, devido a motivos vários, e não a negação. Se um Estado por motivos históricos que se relacionam com direitos adquiridos faz uma alocação de fundos, independentemente da equidade e justeza desta, para as religiões, por que há-de incluir quem opta por não ter religião? Se o Estado decide atribuir um abono às famílias, variável consoante o número do agregado familiar, vai dar também uma parte desse orçamento a indivíduos solteiros e sem filhos para os compensar?
Isto para não falar no papel social que a Igreja, ou as igrejas, têm tido no auxílio à pobreza, a deficientes, e a pesoas e crianças em situações de abandono.
Não sei o que entendes por discriminação e "imposições feitas pelos que têm religião"? Provenho de uma família onde sempre houve religiosos e ateus. Nunca ninguém impôs nada a ninguém nem no nosso seio nem proveniente de fora. E falo mesmo antes da democracia.
Tens ateus que negam a existência de um Deus e ateus que são agnósticos quanto a existência de Deus. Eu por acaso sou dos que são agnósticos.
Quanto à alocação de fundos desconheço quaisquer direitos adquiridos da Igreja. Nem sabia aliás que existissem alguém que falasse em direitos adquiridos para uma determinada religião. Os únicos direitos que posso eventualmente ver são os edifícios religiosos, mas que se são para ser financiados pelo Estado em termos da sua manutenção, talvez devessem ser nacionalizados. Pois se eu for dono de um qualquer edifício histórico, geralmente a manutenção do dito edifício irá caber-me a mim.
O único critério que pode ser usado para financiar a religião católica é o facto de esta ter mais membros que qualquer outra religião em Portugal. Ou seja, todos pagamos impostos, logo, é supostamente justo (algo que discordo), que uma religião como tem mais membros receba proporcionalmente mais contributo do Estado que outros.
Quanto ao papel social da Igreja, muitas vezes é precisamente uma questão de alocação de fundos. Uma AMI, se lhe dessem o financiamento que dão a Igreja, faria provavelmente um melhor trabalho que a Igreja, com a vantagem de não tentar evangelizar quem ajuda.
Em termos de discriminação, sim, sinto-me discriminado. Principalmente, se os meus representantes (da minha "não religião"), não forem auscultados da próxima vez que o Estado auscultar um qualquer membros religioso. As desculpas acabaram-se.
"Tens ateus que negam a existência de um Deus e ateus que são agnósticos quanto a existência de Deus. Eu por acaso sou dos que são agnósticos."
É evidente que sim. Temos ateus que são budistas (sim, a filosofia budista não pressupõe a existência de Deus, pelo menos como entidade revelada); temos ateus adeptos de formas diversas de paganismo e de bruxaria tradicional, temos ateus satanistas... Há ateus para todos os gostos e feitios. Mas essa denominação e respectivo conceito não congregam, por esse mesmo motivo, não congregam uma única e específica tendência religiosa, filosófica ou o que quer que seja. Quando se fala em associação ou núcleo ou grupo de ateus temos de incluir todos estas variantes - o que constitui um grupo muito heterógeneo em relação às religiões propriamente ditas, não?
"Quanto à alocação de fundos desconheço quaisquer direitos adquiridos da Igreja."
Estranho muito não saberes que esses direitos existem de facto não apenas em Portugal como em todos os países que pactuaram com a Concordata. Tanto mais, que após o 25 de Abril foram governos de Esquerda, liderados por laicos e socialistas que reafirmaram a Concordata de 1940, a qual foi de novo reafrimada em 2004. Concordata esta que tem direitos, deveres, estipulados em artigos - os quais definem todo o relacionamento entre Estado e Igreja. Ninguém a fez coagido por nada nem ninguém. Nem tão-pouco é caso único do nosso País.
"Uma AMI, se lhe dessem o financiamento que dão a Igreja, faria provavelmente um melhor trabalho que a Igreja, com a vantagem de não tentar evangelizar quem ajuda."
Lamento o teu desconhecimento e de muitos outros quanto aos papéis quer da AMI quer da Igreja. Isto porque a AMI (instituição que muito prezo), tal como a Cruz Vermelha, Unicef, etc., tem actuado em parceria com muitas missões católicas (franciscanos, denonianos, jesuítas, etc.) por esse mundo fora. A função da AMI é muito mais específica
do quea s várias missões da Igreja (Assistência Médica Internacional, é o que diz a sigla). Quanto à Evangelização, é evidente que tu e muitos outros desconhecem por completo o que tem sido a vida (e a respectiva perda, já agora...)dos missionários por esse mundo fora, o qual tu e eu só conhecemos através dos media.
Em suma, posso reafirmar com convicção que o vosso Ateísmo e respectiva "missão" liberalizante peca por falta de conhecimento, por falta de abertura de espírito e tal como outrora os sectores que levaram a Inquisição a reprimir e a ceifar tantas vidas está enclausurado num sectarismo fechado que cega a capacidade analítica.
Um abraço e bom fim de semana
"bruxaria tradicional, temos ateus satanistas"
Um satanista dificilmente será um ateu. É só alguém que prefere outro Deus.
"Concordata. Tanto mais, que após o 25 de Abril foram governos de Esquerda, liderados por laicos e socialistas que reafirmaram a Concordata de 1940, a qual foi de novo reafrimada em 2004."
A concordata não é um "direito adquirido", é um mero acordo internacional com uma entidade internacional que nem deveria existir (o Vaticano ser um país é ridículo), e fonte de discriminação das religiões não católicas.
Aliás, a concordata, por ser precisamente uma fonte de discriminação dos não católicos, deveria ser denunciada.
A relação da Igreja Católica com o Estado Português deve ser regulada exactamente pela mesma lei que qualquer outra entidade religiosa.
"Quanto à Evangelização, é evidente que tu e muitos outros desconhecem por completo o que tem sido a vida (e a respectiva perda, já agora...)"
A AMI foi um exemplo, tens imensas organizações não religiosas que fazem mais e melhor que as religiosas, ou fariam se tivessem o dinheiro que a Igreja tem. É tudo uma questão de canalizar o dinheiro para o sítio certo.
Quanto a quem morre a evangelizar não percebo porque lhes devia ficar agradecido. São pessoas que morrem a defender aquilo em que acreditam. Mas apenas isso. Não estão a fazer favor a ninguém, senão a si próprios e à sua consciência.
Agora, o que é moralmente reprovável é dar o pão a alguém como isco para converter esse alguém a uma religião, e ainda mais reprovável o é fazê-lo com o dinheiro do Estado.
"falta de abertura de espírito e tal como outrora os sectores que levaram a Inquisição a reprimir e a ceifar tantas vidas está enclausurado num sectarismo fechado que cega a capacidade analítica."
Não me recordo de um ateu que tenha ceifado a vida de um religioso por este simplesmente não ser ateu. Os não religiosos geralmente só querem viver e deixar viver no que toca à religião. Habitualmente a opressão é no sentido contrário.
E na nossa sociedade isso é bem patente nas posições que a Igreja Católica toma em temas como o aborto, a eutanásia, as relações entre pessoas do mesmo sexo, o preservativo ou o casamento.
É que defender uma atitude moral para os seus é uma coisa, e está no seu pleno direito, querer impor os seus moralismos por via da lei a toda uma sociedade que não partilha necessariamente os seus valores é outra coisa muito diferente.
Um exemplo muito concreto: Qualquer Católico está no seu pleno direito em recusar a Eutanásia para si. A Igreja Católica não está no seu pleno direito ao querer impedir por via da lei que outros cidadãos a peçam.
"Um satanista dificilmente será um ateu. É só alguém que prefere outro Deus."
Não, Miguel. A maioria daqueles que se afirmam como satanistas e estão congregados em associações e entidades várias fazem remontar a origem de sua fé a tempos pré-cristãos. Não são adoradores do Diabo, como à primeira vista o nome possa indicar. Se quiseres saber mais sobre o assunto, que acaba por ser off-topic, tens na net muitas fontes.
"A concordata não é um "direito adquirido", é um mero acordo internacional com uma entidade internacional que nem deveria existir (o Vaticano ser um país é ridículo), e fonte de discriminação das religiões não católicas."
Desde quando um acordo internacional não confere direitos a países e a instituições? É, aliás, o princípio jurídico com mais sustentação no direito internacional com repecursões práticas no direito interno de cada país.
A Concordata deveria ser denunciada, porquê? Todos os Estados a assinaram de livre vontade, está regulada com artigos e decretos, disponível a ser consultada por todos. Pode-se não concordar com ela, mas ela não foi estabelecida à rebelia de ninguém. É alheio a ela quem quiser sê-lo.
Quanto a o Vaticano ser um país ridículo, a opinião é tua...
"Quanto a quem morre a evangelizar não percebo porque lhes devia ficar agradecido. São pessoas que morrem a defender aquilo em que acreditam. Mas apenas isso. Não estão a fazer favor a ninguém, senão a si próprios e à sua consciência."
Eu referia-me àqueles que não morrem a evangelizar. Morrem apenas por tentarem ajudar e pelo facto de serem cristãos.~
"Não me recordo de um ateu que tenha ceifado a vida de um religioso por este simplesmente não ser ateu."
Nos países de Leste muitos ateus ceifaram a vida de católicos, ortodoxos, judeus, muçulmanos...
"É que defender uma atitude moral para os seus é uma coisa, e está no seu pleno direito, querer impor os seus moralismos por via da lei a toda uma sociedade que não partilha necessariamente os seus valores é outra coisa muito diferente."
Plenamente de acordo. Mas não é isso que está aqui em discussão, pois não?
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