De modo geral, as democracias desenvolvem um veneno que, em muitos casos, tem um efeito de autodestruição: o cepticismo em relação às forças partidárias e aos respectivos agentes políticos. É esse mesmo veneno que provoca as taxas elevadas de abstenção, o alheamento geral quanto às realidades do país, ao decréscimo da participação cívica mesmo fora do contexto político partidário, etc.
Não quero esmiuçar as fontes e as causas deste "veneno", pois isso daria origem a múltiplos posts e muitos destes eu duvido ter idoneidade e conhecimentos suficientes para os respectivos desenvolvimentos.
No entanto, parece-me evidente é que em Portugal o cepticismo, a aversão e preconceitos em relação à actividade política e respectivas forças partidárias conseguem ser mais fortes e corrosivos do que nos países com mais anos de democracia e de intensas disputas partidárias pelo poder. Os 33 anos passados após o 25 de Abril fizeram nascer um cepticismo de tal ordem que hoje em dia a pertença a um partido político seja ele qual for já é uma razão de suspeição e qualquer tomada de posição de determinado indivíduo com posição-chave presente ou passada numa força partidária é vista como acto altamente conspirativo com causas espúrias e de natureza altamente maquiavélica.
É neste contexto que eu enquadro as violentas reações a este post de Henrique Raposo, no qual eu encontro legítimas expectativas de quem se interessa por política e se situa nesta área político-ideológica. É claro que, como qualquer declaração de expectativa e de esperança quanto a um ser humano numa situação de aspiração ao poder, o post em questão deixa transparecer alguma ingenuidade e, para muitos, talvez, com um cheirinho a encómio. Porém, quando deixar de haver pessoas inteligentes com a "capacidade" de se iludirem com estes supostos "D.Sebastiões" para onde irão parar as democracias e o modelo político ocidental?
Em alguns posts que leio por aí o desprezo e a aversão em relação aos agentes políticos em causa no post do Henrique derivam do vício niilista autodestrutivo e de influência funesta, típico dos posicionamentos que denigrem sem apresentar opções em alternativa. Por piores que sejam, as agremiações políticas de que dispomos deveriam merecer por parte de quem dedica rios de tinta à política - na imprensa e nos blogues - no mínimo, quanto mais não fosse por exclusão de partes, a opção de voto e, de modo legítimo, o activismo partidário. Quase todos somos muito bons na chacota, mas quando toca a construir colocamos comodamente as mãos nos bolsos e assobiamos para o lado. O que não invalida, de modo algum, que devamos deixar de ter espírito crítico quanto a muito D.Sebastião que por aí está para vir. Espero é que não venha nenhum em consequência do niilismo activo, cada vez mais abrangente na nossa praça.






