Porque será que apenas no Norte da Europa há partidos cuja denominação e/ou ideário podem seguramente e sem reticências ser classificados como liberais e com eleitorado suficiente para terem assento parlamentar e mesmo, em coligação, participarem na governação dos respectivos países?
Refiro-me por exemplo ao Venstre da Dinamarca, o qual governa em coligação com os conservadores; ao VVD na Holanda, ao da Suécia, o Folkpartiet Liberalerna, e excluindo desde já os liberais sociais ou radicais, cujo ideário em muitos casos está mais próximo da social-democracia do que da tradição liberal e das novas correntes libertárias. É o caso dos Liberal-Democrats da Inglaterra, do D66 da Holanda e de outros que muitas vezes adoptam a denominação de radicais ou liberais sociais.
Neste sentido podemos constatar que no Sul católico da Europa as correntes liberais (desagrada-me falar em liberalismo...) por pouco mais que fogachos têm tido sua representação, a não ser de modo temporário e pontual em algumas facções dos partidos conservadores ou à direita ou ao centro-direita do espectro político, como se de um aluguer ou empréstimo se tratasse.
Por conseguinte, concluo que as correntes liberais que se assumam de modo mais ortodoxo, ou se preferirmos com mais homegeneidade ideológica, têm mais implantação e aceitação regular de uma parte significativa q.b. do eleitorado em países cuja tradição democrática e estabilidade económica têm uma maturidade superior além de, na maioria dos casos, serem monarquias, com um sistema representativo e uma burguesia empreendedora que remontam à época moderna (pós-medieval).
Este conjunto de factos leva-me a deduzir que as correntes liberais em Portugal e, mesmo, na Espanha dificilmente irão impor-se a curto médio prazo em projectos políticos homogéneos, ou seja, nos quais a sua maioria dos membros seja constituída por liberais. A inexistência de um potencial eleitorado, como tem sido aventado em alguns espaços, bem como uma mentalidade e estrutura económico-social arreigada ao socialismo, a modelos ultrapaternalistas do estado-providência e a estruturas sindicais muito agressivas são apenas mais um reflexo do contexto do Sul da Europa. Se as causas são análogas aos restantes países deste espaço geográfico, isso ficará para futuras discussões. Se bem que uma coisa é certa: o Sul da Europa não tem nem de longe nem de perto a maturidade democrática nem a tradição mercantil do Norte, e já nem falo em questões de liberdades individuais.